Nenhum arquivo sai do seu computador. Vídeo, áudio e imagem são lidos direto do disco e processados na GPU/CPU da máquina.
Entrada MP4 / WEBM / MOV / JPG / PNG / WAV / MP3. Saída MP4, WEBM, PNG, PNG com alpha, sequência de frames, WAV, SVG.
Duração da composição definida por você — o padrão são 10 minutos e o campo aceita mais. Sem limite de camadas, efeitos ou keyframes além da sua placa de vídeo.
A interface é parte do experimento: tudo é parâmetro, tudo é visível, tudo pode ser levado ao extremo.
Não é um passo a passo de botão. É um método: de onde vem a ideia, como o material se junta a ela, e por que a montagem é o momento em que a obra decide o que quer dizer.
Três coisas entram: um tema, um conjunto de referências externas e o material que você já tem ou vai captar. Elas se cruzam — e o que sai desse cruzamento é a sua poética: a sua autoria somada às suas referências. Depois disso vem a edição, que é onde a obra realmente acontece.
O tema está no alto, em preto, porque é ele que manda: sai dele a busca por referências, de um lado, e a captação de material, do outro. As duas linhas pontilhadas no meio se cruzam de propósito — referência e material não caminham em paralelo, eles se atravessam, e é desse atrito (o nó amarelo) que sai alguma coisa que não estava em nenhum dos dois. Só então vem a poética, e só depois dela a edição.
O esquema veio do desenho manuscrito que abre este manual; foi mantido inteiro e ganhou os nomes de seção, os três canais do laboratório e o caminho de execução — que lab faz o quê.
Comece por um assunto que já te ocupa. Cotidiano, cidade, amor, gênero, feminismo, trabalho, memória, corpo, fé, luto, internet — a lista é aberta e o critério é único: tem que te incomodar o suficiente para você voltar nele durante semanas.
Um erro comum é escolher um tema grande demais ("a condição humana") e ficar sem chão. Aperte o foco até caber numa frase concreta:
FAÇA AGORA Escreva o tema em uma frase de até 12 palavras. Se não couber, ainda está largo.
Ninguém inventa do zero, e fingir que inventou é o caminho mais curto para um trabalho fraco. Junte o que já existe e que conversa com o seu tema: filmes, músicas, livros, manifestos, videoartes, uma conversa, uma propaganda antiga, um vídeo de arquivo de família.
Referência não é para copiar: é para você entender como a pessoa resolveu um problema parecido com o seu. Quando ver algo que funciona, anote o mecanismo, não o resultado — "ela corta sempre no meio da fala", "o som entra antes da imagem", "a cor só aparece no fim".
FAÇA AGORA Liste 5 referências e, ao lado de cada uma, um mecanismo que você quer roubar — de técnica, não de conteúdo.
Duas origens, e as duas valem: o que você já tem (arquivo do celular, gravações antigas, fotos de família, prints, áudios de mensagem) e o que você ainda vai captar.
o que se move. mesmo tremido, mesmo vertical, mesmo feio.
o que fica parado tempo suficiente para você olhar.
vozes, ambiente, ruído. quase sempre o material mais forte.
diários, mensagens, listas, legendas, cartazes.
Capte mais do que precisa e capte coisas aparentemente inúteis: a mão esperando, a rua vazia, o silêncio de cinco segundos antes da pessoa responder. Esses são os pedaços que salvam uma montagem.
FAÇA AGORA Separe uma pasta só com o material do projeto. Nomeie os arquivos com o que eles são, não com o que a câmera chamou.
É aqui que o diagrama cruza as setas. A sua poética é o encontro entre o que só você viveu e o que você aprendeu com os outros. Não é estilo visual — é a regra que você decide seguir neste trabalho.
Uma poética costuma caber numa restrição. Alguns exemplos de regras que geram trabalhos inteiros:
FAÇA AGORA Escolha uma regra e escreva ela no topo da folha. Ela é a sua poética até o fim deste trabalho. Se quebrar, quebre de propósito e uma vez só.
Esta é a etapa fundamental: o seu material pode mudar de significado de acordo com a montagem.
O mesmo plano de alguém olhando pela janela vira saudade, vigilância, tédio ou medo — dependendo apenas do que vem antes e do que vem depois. Nada disso está no plano; está no corte. Por isso a montagem não é o acabamento do trabalho, é o trabalho.
trocar dois clipes de lugar muda a causa e o efeito da cena inteira.
o mesmo plano em 2s é informação; em 30s é sensação; em 3min é confronto.
a terceira vez que algo volta já não significa o que significava na primeira.
EXPERIMENTE Monte a mesma sequência de três jeitos diferentes e assista aos três seguidos. Você vai escolher com muito mais clareza — e às vezes vai descobrir que o trabalho era outro.
Dos silêncios, dos ruídos, das distorções — de todos os artifícios que sustentam a sua ideia. Numa videoarte eles não são defeito nem enfeite: são argumento.
tirar o som é o efeito mais violento que existe. use com intenção, não por falta de trilha.
chiado, vento no microfone, hum de geladeira. o ruído localiza — diz onde a gente está.
estourar, atravessar, granular. quando a imagem se desfaz, ela fala do que não se sustenta.
o loop transforma um gesto qualquer em ritual — ou em prisão.
A pergunta que separa o artifício do enfeite é sempre a mesma: isto está aqui porque a ideia precisa, ou porque ficou bonito? Se for a segunda, tire.
O título é a última peça de montagem, não uma etiqueta. Ele entra na obra: muda o que a primeira imagem parece dizer.
FAÇA AGORA Escreva 10 títulos ruins de propósito. O bom quase sempre está escondido entre o sexto e o décimo.
Coloque as referências nos créditos. Isso não enfraquece o trabalho — é o contrário: mostra de onde ele vem e onde ele se coloca. E resolve a parte prática de citar o que não é seu.
Se usou material de terceiros sem licença, isso limita onde a obra pode circular — festival e mostra costumam pedir declaração. Vale saber disso antes de terminar, não depois.
Cada etapa do diagrama tem um lugar exato dentro do laboratório. A cor à esquerda diz em qual canal você vai estar.
No LAB 01 · VÍDEO, use FONTE na coluna da esquerda — ARQUIVO, IMAGEM, ÁUDIO, WEBCAM — ou simplesmente arraste os arquivos para dentro da janela. Cada arquivo entra como um clipe no fim da pista, um depois do outro. Vários vídeos na mesma pista é o comportamento normal, não uma pilha de camadas.
Na barra do viewport, TELA escolhe a proporção: 9:16 para Reels, 16:9 para tela cheia, 1:1 para grade. Decidir isso antes evita remontar tudo depois. O limite de duração da composição é seu: vem em 10 minutos e o campo LIMITE, na ficha da composição, aceita o que você quiser.
S corta no cursor. Arraste o corpo do clipe para mover, arraste as bordas para aparar (trim). Alt enquanto apara faz ripple — fecha o buraco. Del apaga, Shift+Del apaga e fecha. ↑ ↓ pula de corte em corte.
Precisa de mais camadas? +V cria pista de vídeo, +A de áudio. O que está mais em cima aparece na frente.
O LAB 02 · ÁUDIO tem 12 módulos: velocidade e tom, reverso, filtro, distorção, atraso, reverberação, granular. É onde nascem o ruído e a distorção que a Parte 1 pediu. Terminou? MANDAR PRA TIMELINE devolve o áudio tratado como clipe.
Na linha do tempo, cada clipe de som tem volume com keyframes e fades de entrada e saída. E lembre do silêncio: uma pista muda por quatro segundos é uma decisão, não um esquecimento.
O LAB 03 · TIPOGRAFIA trata cada letra como objeto. As famílias LAB são desenhadas por código: por isso conseguem ser escritas à mão na tela — a ferramenta ESCRITA À MÃO desenha o traço do começo ao fim, na frente de quem assiste.
ENVIAR PRA TIMELINE manda o texto como PNG com fundo transparente, então ele entra por cima do vídeo sem caixa branca atrás. Para usar fora daqui, PNG α ou SEQUÊNCIA PNG α.
São duas coisas diferentes e a diferença importa:
É assim que se faz "o ASCII começa em 00:12 e termina em 00:38" sem tocar em nenhum clipe.
Com o clipe selecionado, o painel MOTION abre posição, escala, rotação, âncora e opacidade. O botão ◆ ao lado de cada propriedade é o cronômetro: ligado, qualquer mudança vira keyframe no instante do cursor.
Os keyframes aparecem como losangos dentro do clipe e podem ser arrastados. Em KEYFRAMES você escolhe a curva de cada um — LINEAR, EASE IN, EASE OUT, EASE IN/OUT, BÉZIER, HOLD — e vê o gráfico de valor e de velocidade. Na prévia, a caixa em volta do clipe move, gira e redimensiona direto com o mouse.
Clique com o botão direito num clipe → transição na entrada ou na saída. Além de dissolver, cortina, deslizar, empurrar e zoom, existe a família MOTION: PULL, BLOCK, TRAVEL, SPIN, FLIP, SPRING, POP e FOLD, cada uma com parâmetros próprios. A duração se arrasta pela borda hachurada do clipe.
A GALERIA DE FILTROS na coluna da esquerda mostra 30 emulsões com miniatura do quadro que está no cursor. Um clique aplica no clipe selecionado — ou, sem seleção, cria uma camada de ajuste para a sequência inteira.
Para envelhecer de verdade, o grupo PELÍCULA tem janela de câmera (8 mm, Super 8, 16 mm, 35 mm) com canto arredondado e perfuração, vazamento de luz, flash de rolo, grão por bitola, poeira, risco e tremor de janela. Os estilos prontos 8 MM CASEIRO, SUPER 8, 16 MM, 35 MM e PROJEÇÃO VELHA montam a cadeia inteira de uma vez.
O título e os créditos saem do LAB 03 como PNG com alpha e entram como clipes de tipografia — vermelho na linha do tempo, fáceis de achar. Deixe os créditos legíveis: se não dá para ler, não é crédito.
EXPORTAR ↗ abre três modos: tempo real (com som), frame a frame (exato, sem som) e sequência PNG (com transparência de verdade). MP4 e WEBM não guardam alpha — para isso, sequência PNG.
Uma estrutura que funciona e cabe no limite de uma composição. Faça uma vez seguindo à risca; depois quebre.
um único plano longo, som ambiente cru. estabelece o lugar e o silêncio.
texto sobre preto ou sobre a imagem parada. tipografia escrita à mão entra bem aqui.
6 a 10 planos curtos que repetem um gesto. camada de ajuste com um efeito único cobrindo todo o trecho.
corte seco para silêncio absoluto, ou distorção máxima. é o ponto que o resto sustenta.
volta do primeiro plano, agora com outro som — o mesmo material, outro sentido.
autoria e referências. sem música nova.
REGRA DO EXERCÍCIO Use no máximo um efeito de imagem no trabalho inteiro. A restrição é o que obriga a montagem a resolver.
quando o trabalho depende do efeito para existir, tire o efeito e veja o que sobra. o que sobra é o trabalho.
planos com a mesma duração viram metrônomo. varie de propósito.
música por cima para "unir" o que não está montado só adia o problema.
quatro segundos sem som parecem uma eternidade para quem monta e um respiro para quem assiste.
se o texto já diz tudo, a imagem vira ilustração. deixe uma das duas coisas em falta.
além de justo, é o que permite a obra circular.
Agora abra o laboratório e monte a primeira versão ruim. É ela que ensina qual é a segunda.